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quinta-feira, 18 de março de 2010

Investidor de varejo europeu tem demanda inédita por Brasil

JPMorgan Asset Management lançou fundo destinado exclusivamente ao Brasil no Reino Unido


O Brasil sempre foi visto como um dos destinos favoritos para as férias dos europeus. Mas, enquanto buscavam relaxar com o sol e a praia do outro lado do oceano, eles fugiam dos riscos de um mercado financeiro emergente e preferiam a tranquilidade de rendimentos mais estáveis. A nova ordem econômica mundial está mudando esse cenário e, pela primeira vez, os investidores pessoa física da Europa mostram forte demanda por ativos brasileiros.


Como resultado, as instituições financeiras aumentam a aposta no País e criam novos negócios para atender esse público. Diante de taxas de juros extremamente baixas e recuperação frágil no exterior, os estrangeiros se encorajam para ir atrás da palavra mágica que o Brasil pode oferecer: retorno.

O JPMorgan Asset Management acaba de lançar um fundo destinado exclusivamente ao Brasil no Reino Unido. A Somerset Capital Management também criou recentemente uma carteira global voltada para emergentes, na qual o Brasil tem participação de 12,5%. Os gestores dos fundos dizem que os lançamentos são simplesmente uma reação à procura por papéis brasileiros.

O interesse do investidor institucional europeu pelo Brasil já vem crescendo há alguns meses, o que não deixa de ser um passo significativo para um mercado voltado prioritariamente para a Ásia e o leste europeu. Tanto que, para aproveitar esse cenário, um grupo de executivos financeiros criou a consultoria de fundos Brazil Funding.

Mas a grande novidade é que agora as pessoas físicas também decidiram encarar os riscos. "A principal mudança é o investidor de varejo olhando para fora, a atitude mudou, existe muita demanda", afirmou Edward Lam, sócio da Somerset Capital Management.

"Há forte procura dos investidores pessoa física na Europa por ações brasileiras", disse Claire Simmonds, administradora de recursos para emergentes do JPMorgan. "Eles acreditam que os países desenvolvidos terão uma ressaca fiscal e se sentem mais confortáveis para aumentar a exposição nos emergentes."

A estabilidade econômica dos últimos anos, o potencial de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), a capacidade do consumo doméstico, o baixo endividamento privado e a resposta rápida após a crise são os fatores macroeconômicos que atraem os estrangeiros.
Do ponto de vista microeconômico, é sempre citada a criação do Novo Mercado, que melhorou as regras de governança corporativa das empresas, dando mais segurança para investidores conservadores. "O Novo Mercado mudou as regras do jogo para os minoritários", disse Sebastian Luparia, gestor do JP Morgan para a América Latina. "Fez toda a diferença para nós", concorda Lam, da Somerset.

O JP Morgan pretende levantar cerca de R$ 150 milhões com a carteira brasileira - um investment trust. O curioso é que os recursos serão administrados principalmente de Buenos Aires, onde Luparia passa a maior parte do tempo, pois o banco fechou sua administração de recursos no Brasil anos atrás.

O gestor, que acompanha o mercado nacional há muitos anos, diz que vê potencial em companhias pequenas e médias no País. A estratégia é buscar empresas que se beneficiarão do crescimento dos investimentos público e privado nos próximos anos, estimulados pela Copa do Mundo e Jogos Olímpicos.

No caso da Somerset, o foco é o pagamento de dividendos, com objetivo conservador e de longo prazo. A preferência recai sobre setores de serviços públicos, que pagam proventos mais estáveis. Vale e Petrobras ficam de fora da carteira, pois o gestor Edward Lam considera que a distribuição de lucros das blue chips é imprevisível. "Na Europa, as empresas mal estão pagando dividendos e no Brasil a obrigação de distribuir 25% do lucro é mais um atrativo."


Riscos

Como o Brasil traz oportunidades, carrega junto riscos, como alertam especialistas. O estrategista de emergentes do ING, Charles Robertson, diz que compartilha da visão otimista sobre o País, em razão do baixo endividamento das famílias, da redução dos juros nos últimos anos e das condições do balanço de pagamentos. No entanto, questiona se os mercados não estão ignorando sinais de alerta no Brasil, enquanto vivem o atual namoro com os emergentes.

Ele ilustra as preocupações com anedotas sobre o custo de vida em São Paulo: hotel com diária de US$ 900,00 e pizza para uma família de quatro pessoas com sobremesa por US$ 180,00. Segundo Robertson, hoje está mais caro contratar um analista na cidade do que em Manhattan.

"Isso me lembra Moscou em 2007-2008, quando eu acidentalmente comprei um peixe por US$ 200,00", diz. "Mostra que os solavancos pelo caminho são inevitáveis e que a exuberância precisará de alguma correção entre 12 e 18 meses."

No exterior, o controle da inflação e dos gastos públicos é sempre apontado como necessidade para a manutenção da estabilidade econômica. Lam, da Somerset, lembra da imposição de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para os estrangeiros, algo mal recebido entre os investidores.

Para Wilber Colmerauer, sócio da consultoria Brazil Funding, o principal risco em meio às oportunidades atuais é a falta de infraestrutura. "Não se pode cair na conversa de que os emergentes são totalmente imunes", disse. "O Brasil não pode viver como na Ilha da Fantasia e correr o risco de ficar para trás se a economia continuar apenas nas commodities."

Fonte: Estadão

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